Rodrigo Leão diz nunca ter perseguido o sucesso internacional e continua a fazer a música que lhe faz sentido.
Com mais de quatro décadas dedicadas à música, o compositor e multi-instrumentista construiu uma carreira discreta e singular, movida pela emoção, pela curiosidade e por uma profunda ligação à melodia, consagrando-se, sem o ambicionar, como um dos grandes autores da música portuguesa. Sentámo-nos à conversa com o músico, que de forma despretensiosa falou do seu percurso e da forma como vê a arte que o impele a continuar a criar. Idealista, mas pragmático, é categórico: «nunca fiz música a pensar se vai vender ou não; faço o que me vai na alma», afirma, com a serenidade de espírito a que já nos habituou.
Foi com a Sétima Legião que tudo começou, em 1983, com o single Glória, ainda antes de terminar o liceu. «Na altura tínhamos um entusiasmo enorme. Íamos tocar nos liceus de todo o país e achávamos que isso era o mundo inteiro», recorda. A trabalhar com uma editora independente, a Fundação Atlântica, foi aí que se cruzou com Pedro Ayres Magalhães, dos Heróis do Mar, com quem fundou os Madredeus, um dos projectos mais universais da música portuguesa.
Com os Madredeus
Estávamos em meados da década de 80 e «queríamos fazer algo mais acústico, sem guitarras eléctricas nem bateria», conta, descrevendo uma sonoridade que se afastava do rock e se aproximava da essência da música portuguesa. O primeiro disco, Os Dias da MadreDeus, saiu em 1987 e abriu caminho para uma década intensa. «Entre 1990 e 1994 chegámos a fazer setenta concertos por ano». Para o músico, «foi uma época de grande emoção, mas eu já sentia necessidade de explorar outras sonoridades».
O passo seguinte foi uma consequência natural daquilo que sentia. Em 1994, Rodrigo Leão despede-se do grupo e aventura-se a solo, influenciado por compositores como Ryuichi Sakamoto e Philip Glass. O resultado foi Ave Mundi Luminar, o primeiro trabalho em nome próprio, onde mistura sintetizadores com um trio de cordas e vozes em latim. «Talvez por ser uma fusão pouco habitual, acabou por ser editado em vários países», explica. Foi o início de um caminho sem pressa. «Percebi que o meu rumo era este: fazer música que me tocasse, sem pensar no mercado. Desde a Sétima Legião que faço o que me vai na alma.»
Quando a música fala por si
Compor com essência pode ter sido o catalisador do sucesso internacional que, não sendo o que o impulsiona, acaba, de certa forma, por marcar o artista. Rodrigo Leão recorda o sucesso em Espanha, onde «tocámos mais do que em Portugal durante alguns anos», e menciona «um momento curioso» em que foi convidado a compor a banda sonora do filme O Mordomo, de Lee Daniels, nomeado para os Óscares. «Fiz música para alguns filmes e documentários, e há temas meus usados em séries e produções televisivas», diz. A internacionalização nunca foi o grande objectivo do compositor, que continua a privilegiar a autenticidade e a simplicidade, fiel à sua forma muito própria de estar na música.
O país com o público mais entusiasta está aqui próximo, na vizinha Espanha, onde Rodrigo Leão tem actuado mais do que em Portugal nos últimos anos. «É um público caloroso», descreve o músico, que compara com o público do norte da Europa: «mais reservado, mas igualmente receptivo». Itália, Alemanha, Reino Unido, Brasil e Coreia do Sul são alguns dos países onde já apresentou a sua música.
Sobre o que o prende agora, o compositor mantém-se activo em palco com a Sétima Legião e prepara-se para apresentar o seu mais recente trabalho, O Rapaz da Montanha, que descreve, sem reservas, como «o disco mais português que já fiz». O álbum será apresentado a 19 de Dezembro no Coliseu de Lisboa e em Fevereiro no Porto. Paralelamente, Rodrigo Leão está a concluir uma breve ópera para crianças, em que tem trabalhado nos últimos meses.
«A minha grande satisfação é fazer música. Se o público gostar, tanto melhor. Mas aquele momento é nosso e ninguém no-lo tira». É assim que o músico termina uma conversa serena e autêntica, de quem se apresenta tal como é.







