José Neves, Presidente da Comissão de Defesa e Director de Segurança Interna de Defesa da AED Cluster Portugal, em entrevista à Global Expo, analisa o actual contexto da base tecnológica e industrial de defesa nacional face ao compromisso de investimento de 2% do PIB até 2030.
No contexto do objetivo de atingir 2% do PIB em Defesa até 2030, o ponto essencial para nós, na AED Cluster Portugal, é simples: não basta aumentar a despesa — é crítico decidir “como” a aplicamos. Se o investimento for estruturado com previsibilidade, cooperação industrial e visão de cadeia de valor, conseguimos transformar orçamento em capacidade, exportações, emprego qualificado e soberania tecnológica; se não for, corremos o risco de apenas transferir valor para fora. INOVAÇÃO!
De que forma as empresas do cluster AED estão preparadas para absorver este reforço de investimento? Em que nichos tecnológicos Portugal tem maior vantagem competitiva?
As empresas do nosso ecossistema estão, hoje, melhor preparadas do que há poucos anos para responder a um reforço de investimento — sobretudo porque Portugal já construiu competências relevantes em conceção, engenharia, qualificação e integração, e não apenas na execução industrial. Em Defesa, isto faz toda a diferença: quem entra cedo no ciclo (requisitos, arquitetura, validação e certificação) tende a reter mais valor ao longo de todo o programa.
Dito isto, importa sermos muito pragmáticos: a capacidade existe, mas a escala e a velocidade de mobilização dependem de três condições de contexto que não podemos ignorar: previsibilidade de procura, modelos de contratação mais ágeis e, acima de tudo, mecanismos que assegurem retorno industrial efetivo. Caso contrário, corremos o risco de transformar o esforço orçamental num simples movimento de recursos para fora, sem impacto estrutural na economia nacional.
Numa lógica prática, os nichos onde Portugal pode ser particularmente competitivo incluem:
- Aeronáutica e sistemas aéreos: Inclui engenharia, fabrico qualificado, manutenção e suporte, e integração em cadeias globais, com foco exportador.
- Sistemas autónomos e não tripulados (aéreos, marítimos e terrestres): Plataformas, sensores, integração e software, um mercado em forte crescimento onde a agilidade das PME é uma vantagem real.
- Espaço: Nomeadamente pequenos satélites, operações e serviços a jusante (dados, observação, comunicações), com elevado potencial de duplo uso.
- Ciberdefesa, comunicações seguras, comando e controlo e software crítico: Competências transversais e altamente exportáveis, com barreiras de entrada mais tecnológicas do que industriais.
- Materiais avançados e fabrico avançado (incluindo compósitos e processos digitais): Onde conseguimos combinar conhecimento industrial, engenharia e qualificação.
- Têxteis técnicos e equipamentos de proteção: Uma base industrial com potencial claro de crescimento em Defesa e Segurança, desde que existam especificações consistentes e aquisição programada.
- Integração de Sistemas: Desenvolvimento de sistemas de comando e controlo (C2) com intelligence e fusão de dados multi-domínio (terra, mar, ar, espaço e ciberespaço) com recurso a inteligência artificial.
O que defendemos é uma abordagem orientada a resultados: usar as grandes aquisições — nacionais e europeias — como alavanca para integrar mais empresas portuguesas em níveis Tier mais altos, consolidar relações duradouras com integradores internacionais e garantir que este esforço de investimento se traduz em capacidade, emprego qualificado e competitividade para Portugal. Para que esta aposta resulte, é importante que exista uma aposta em mais envolvimento nacional nos processos de aquisição, alavancando competências não só no desenvolvimento de novos produtos, mas também nas sustentabilidades dos mesmos a médio longo prazo.
Quais são os principais obstáculos (certificações, financiamento ou acesso a concursos) que as PME e start-ups portuguesas ainda enfrentam para entrar de forma sustentada na cadeia de valor da defesa e segurança?
As PME e as start-ups portuguesas têm capacidade tecnológica, mas a entrada — e, sobretudo, a permanência — na cadeia de valor da Defesa e Segurança continua condicionada por barreiras que não são apenas tecnológicas; são de processo, risco e escala. Do que observamos no terreno, os principais obstáculos são:
- Qualificação e certificações exigentes: Qualidade, rastreabilidade, requisitos de segurança da informação e, em muitos casos, processos de acreditação e auditoria que implicam investimento e tempo. Para uma PME, isto significa custos relevantes antes de existir receita e uma curva de aprendizagem pesada.
- Ciclos de contratação longos e complexos: Em Defesa, o “time-to-contract” é frequentemente incompatível com o ritmo de uma start-up. A carga administrativa, a exigência documental e a incerteza até à decisão final criam um risco elevado e, quando os processos derrapam, o custo de oportunidade é enorme.
- Financiamento ajustado à realidade da Defesa: Há necessidade de capital para prototipagem, testes, certificação, industrialização e capital de exploração. Sem instrumentos que acomodem ciclos longos e risco tecnológico, muitas empresas ficam presas no chamado “vale da morte” entre o protótipo e o contrato.
- Acesso a integradores e a programas com escala: A Defesa é, na prática, um mercado de cadeias de fornecimento. Sem referências, sem histórico e sem portas abertas a integradores, é difícil passar de fornecedor pontual a parceiro recorrente. E sem escala — nacional e europeia — é difícil sustentar investimento contínuo em produto.
- Validação operacional e acesso ao utilizador final: Para muitas soluções, o que falta não é talento, é ambiente de teste, demonstração e validação com o utilizador. Sem isso, é muito mais difícil provar maturidade, reduzir risco e acelerar a adoção.
É por isso que, no quadro do objetivo de 2% do PIB até 2030, nós defendemos uma abordagem pragmática: transformar investimento em pipeline, com previsibilidade e mecanismos que reduzam risco para quem compra e para quem fornece. Quando existe sinal claro de procura, processos proporcionais à dimensão das empresas e instrumentos de financiamento adequados, as PME e start-ups portuguesas conseguem não só entrar, mas crescer de forma sustentada.
Como tem evoluído a aposta em tecnologias de “uso dual” (civil e militar) no seio das vossas associadas, nomeadamente no âmbito da digitalização e da Indústria 5.0?
A aposta dos associados da AED no duplo uso tem vindo a crescer por uma razão evidente: é a forma mais eficiente de ganhar escala, maturidade tecnológica e acesso a mercados, mantendo a capacidade de adaptação aos requisitos militares. Há três tendências muito claras:
- Digitalização da engenharia e da produção: Modelos digitais, simulação, integração de dados e “quality by design”, com impacto direto em custos e tempos de entrega.
- Automação e inteligência artificial: Desde inspeção e manutenção preditiva até otimização de processos e apoio à decisão — sempre com foco em robustez, explicabilidade e segurança, porque em Defesa “tem de funcionar”.
- Indústria 5.0: Tecnologias avançadas com enfoque humano, resiliência e sustentabilidade, e com cibersegurança integrada desde a origem (“secure by design”), o que é particularmente crítico em sistemas conectados e em cadeias de fornecimento internacionais.
Por sua vez, o domínio do Espaço constitui hoje um dos exemplos mais claros da lógica de duplo uso. As capacidades desenvolvidas pelos associados da AED Cluster Portugal em áreas como a Observação da Terra, os sistemas de Posicionamento, Navegação e Tempo, as telecomunicações ou os serviços baseados na exploração de dados espaciais suportam um vasto conjunto de aplicações civis — desde a agricultura de precisão à monitorização de incêndios florestais, da previsão meteorológica ao ordenamento do território e à proteção ambiental — e, em simultâneo, aplicações críticas nos domínios da defesa e da segurança, como a vigilância de fronteiras, a monitorização da costa e da Zona Económica Exclusiva, a consciência situacional marítima e o reforço das comunicações críticas.
Em termos estratégicos, os projetos estruturantes como o Atlantic Centre e o Porto Espacial de Santa Maria materializam de forma muito concreta esta abordagem dual, permitindo transformar despesa pública em capacidade industrial, tecnológica e exportadora. Ambos reforçam a projeção atlântica de Portugal como plataforma integradora de capacidades espaciais, marítimas, digitais e de defesa, promovendo a ligação entre indústria, utilizadores civis e utilizadores militares.
Estes investimentos demonstram que o Espaço não é um setor isolado, mas um multiplicador de capacidades no quadro da Indústria 5.0, com impacto direto na criação de emprego qualificado, na internacionalização das empresas e no reforço da soberania tecnológica, da resiliência operacional e da competitividade da base tecnológica e industrial nacional. Portugal tem condições para se afirmar como plataforma atlântica de inovação em Defesa e duplo uso, ligando capacidades aeroespaciais, marítimas, digitais e espaciais e é isso que procuramos acelerar.







