Dona de uma narrativa singular, nascida do amor pela arte popular e de uma profunda atenção às questões ambientais, Vanessa Barragão desenvolve um discurso contemporâneo ancorado tanto na dimensão sincrónica como na diacrónica, que dá fundamento à sua estética de trabalhar a matéria têxtil. A artista reinventa técnicas ancestrais através de uma abordagem atual, sensível e harmoniosa, construindo uma linguagem visual que assenta em dois eixos fundamentais: a preservação de saberes tradicionais e a reutilização consciente de materiais.
Nascida em Faro, em 1992, Vanessa Barragão cresceu próxima dos têxteis e do saber manual, um terreno fértil que mais tarde moldaria a sua linguagem artística. A formação em Design de Moda levou-a a confrontar-se com a face menos visível da indústria; o peso ambiental e o desperdício, experiência que a afastou desse universo. Procurando alternativas mais alinhadas com a sua sensibilidade, integrou uma fábrica de tapetes artesanais, onde descobriu outra realidade igualmente marcada por resíduos acumulados.
Foi desse confronto que emergiu o impulso para criar algo diferente. Recuperando técnicas tradicionais transmitidas pelas avós, começou a transformar excedentes de fibras, sobretudo lã, em matéria criativa. O processo, inicialmente experimental, evoluiu para o conjunto de instalações têxteis que hoje definem o seu percurso e a sua assinatura estética.
Do atelier para o mundo
O reconhecimento do trabalho de Vanessa Barragão tem vindo a crescer além-fronteiras, traduzindo-se em colaborações com instituições de grande prestígio. Em 2024, uma das suas peças foi seleccionada para representar Portugal numa oferta oficial à Organização das Nações Unidas, passando desde então a integrar a colecção permanente do edifício da ONU, em Nova Iorque, um marco raro para uma artista têxtil portuguesa.
Fiel à ideia de que a arte pode ser um agente transformador, Barragão continua a expandir a sua prática e a procurar novos desafios. Os projectos que tem em desenvolvimento apontam para uma ampliação do seu alcance, reforçando a vontade de levar a sua mensagem de sustentabilidade a públicos cada vez mais amplos e de afirmar um percurso que reposiciona a arte têxtil no panorama contemporâneo.
O mar como herança criativa
Vanessa Barragão é uma artista têxtil portuguesa cuja obra nasce de uma relação íntima com o mar e com a paisagem natural que a rodeou desde sempre. Criada em Albufeira, onde hoje mantém o seu atelier, encontrou na sustentabilidade o eixo central da sua expressão artística. Recupera materiais descartados, sobretudo lãs e fibras sintéticas, e, através de técnicas tradicionais como o croché, a feltragem ou a esmirna, transforma-os em composições densas e orgânicas que evocam fundos oceânicos, recifes e formas vivas. A textura e a cor assumem, nas suas mãos, uma presença quase escultórica, remetendo para a riqueza e fragilidade dos ecossistemas marinhos.
As experiências que marcaram a infância, nomeadamente as viagens às Caraíbas e o contacto directo com a degradação dos recifes de coral, tornaram-se o fundamento emocional do seu trabalho. Para Vanessa, a criação têxtil é tanto um gesto artístico como um acto de consciência ambiental: cada peça convida a olhar para os efeitos da poluição, do consumo excessivo e da perda de saberes artesanais. A singularidade das suas obras, feitas de tempo, cuidado e experimentação, espelha a delicadeza do mundo natural e desafia o público a reconsiderar o impacto das suas escolhas. É nesse espaço, entre tradição e responsabilidade ecológica, que a artista procura inspirar uma mudança de atitude.




