A Global Expo assistiu à palestra do arquitecto Eduardo Corales, do atelier Campo Arquitectura, que apresentou uma reflexão profunda sobre o papel da investigação, da medição e do conhecimento territorial no caminho para a descarbonização. O tema deste ano, “Descarbonizar Arquitecturas”, serviu-lhe de âncora para colocar questões fundamentais sobre a prática contemporânea.
«O que normalmente vemos na prática da arquitectura é um produto, um resultado final materializado numa obra», afirmou. «Mas o que muitas vezes não vemos é o campo de conhecimento que informa estas operações, e que está na origem das decisões que tomamos». Para Corales, a arquitectura não deve ser apenas o edifício concluído, mas um processo sustentado em representar, medir e comunicar, três verbos que repetiu ao longo da palestra.
Barragens como paisagens energéticas: inventário das maiores infraestruturas
Um dos projectos apresentados foi o “Powerpoint”, desenvolvido em parceria com a Fundação EDP, no qual a equipa realizou um inventário das 30 maiores barragens portuguesas, recolhendo informação técnica, histórica e territorial. «Através do mapeamento do país e do levantamento destas barragens, criámos a primeira colecção de desenhos e gráficos para compreender estas arquitecturas. As barragens não são singularidades; são uma família de elementos que compõem um certo momento da construção e da tecnologia da produção energética em Portugal».
O estudo incluiu modelos tridimensionais, desenhos interpretativos e análises comparadas das diferentes épocas de construção. Segundo Corales, o objectivo foi dar visibilidade a um património muitas vezes invisível: «São elementos que criam paisagens energéticas do norte ao sul. Era necessário apresentar e conhecer estas arquitecturas». O arquivo está agora a ser digitalizado e ficará acessível ao público.
Medição e CO2: a métrica crítica para decidir
O arquitecto defendeu a necessidade de métricas claras para orientar a descarbonização. Como referiu, «as estabilizações afectam uma única métrica: o CO2, e ainda não estamos totalmente familiarizados com ela, mas precisamos de escolher métricas que nos permitam comparar». A proposta é directa: medir kg de CO2 por metro quadrado como critério para filtrar e avaliar soluções. «Sem medir, não conseguimos tornar o processo mais preciso nem saber o verdadeiro impacto das decisões», concluiu.
Corales apresentou também um estudo sobre três das principais zonas de extracção de mármore: Vila Viçosa, Borba e Estremoz. De acordo com o responsável, «pouco se sabia: não havia mapas, não havia dados. Apenas uma noção vaga de onde estavam».
O levantamento permitiu compreender as volumetrias, a extensão territorial, a localização das maiores áreas de extracção e a relação directa entre material e território. «É necessário pensar no material e no território que o produz. A arquitectura não pode desligar uma coisa da outra», reforçou.
Inventário da cortiça: registar antes que desapareça
Num inventário dedicado à cortiça, a equipa estudou dez tipologias de cascas. Mas pouco depois, o território analisado foi consumido por um incêndio. «Infelizmente, a linha ardeu. Mas o levantamento tornou-se precedente para quantificar o que existia e compreender o que se perdeu». Para o arquitecto, este caso demonstra a urgência do registo enquanto ferramenta de conhecimento e memória.
A investigação, afirmou, deve ser acompanhada de uma dimensão pública: «O que nos importa é ter presença nos espaços públicos, na arquitectura das pessoas que encontramos, nas comunidades».
O ciclo “Campo Comum”, realizado no CCB, reuniu arquitectos e especialistas para debater habitação, energias renováveis, upcycling e modelos internacionais de adaptação às crises. «Colocar estes temas em formato de conferência permite um acesso muito mais próximo ao conhecimento», notou.
Corales apresentou também o contributo do estúdio para o Pavilhão da União Europeia na Expo Osaka, centrado na relação entre radicalidade e territórios em transição. «Os territórios críticos são aqueles onde a energia tem impacto profundo. Queríamos perceber onde a arquitectura tem voz… e onde a perde».
A fechar, Eduardo Corales reforçou que a arquitectura não se deve limitar ao acto de construir: «Existem muitas formas de ser arquitecto, assim como existem muitas maneiras de investigar e ensinar arquitectura. Limitar a prática ao edifício construído estreita profundamente o que ela pode ser».







