O I Congresso de História do Turismo e do Lazer, a realizar-se no Centro Cultural de Cascais, a 15 e 16 de Janeiro, propõe um olhar aprofundado e crítico sobre duas práticas frequentemente encaradas de forma superficial: o turismo e o lazer. Longe da ideia de animação ou diversão, o congresso parte do princípio de que estas actividades são construções históricas complexas, atravessadas por factores sociais, políticos, culturais e económicos.
Ao convocar investigadores e interessados para um espaço de reflexão e diálogo, o congresso assume desde logo uma posição clara: compreender o turismo e o lazer implica ir além da sua dimensão recreativa e interrogá-los enquanto fenómenos estruturantes das sociedades modernas. Viajar, descansar, frequentar espaços de lazer ou participar em práticas recreativas nunca foram actos neutros. Pelo contrário, estiveram, e continuam a estar, associados a relações de poder, distinção social, controlo dos tempos livres, bem como a estratégias deliberadas de ordenamento do território e das populações.
Um dos eixos centrais do congresso prende-se, precisamente, com a análise das motivações que estiveram na origem do surgimento e do fomento do turismo e do lazer, muitas vezes promovidos ou autorizados pelos poderes políticos, económicos ou institucionais. A vilegiatura, os momentos de recreio e as práticas de lazer foram, em diferentes épocas, incentivados como formas de regeneração social, afirmação identitária, vigilância moral ou mesmo pacificação social.
Objectos de reflexão
Os temas propostos para debate revelam bem a amplitude e a ambição do encontro. Desde os viajantes e destinos oitocentistas, passando pelo turismo na I República e pelas tensões entre “turismo médio” e turismo de luxo durante o Estado Novo, até à relação entre turismo e democracia, o congresso percorre diferentes momentos e regimes políticos, evidenciando como o turismo se adapta e é moldado pelos contextos históricos.
A reflexão estende-se também aos novos territórios turísticos, às sociedades recreativas, aos cafés enquanto espaços de tertúlia e de vigilância, bem como às práticas de lazer marcadas por questões de género, nomeadamente os lazeres femininos. O desporto, os jogos populares, a gestão do património e dos museus surgem igualmente como campos de análise, reforçando a ideia de que o lazer é um fenómeno transversal à vida social.
Particularmente interessante é a inclusão de temas ligados à cultura e às artes, como o cinema e a transição do mudo para o sonoro e o teatro de revista, questionando-se se este se afirmou sobretudo como entretenimento ou como espaço de subversão. Estes tópicos sublinham a centralidade das práticas culturais na construção dos imaginários turísticos e dos tempos livres.
O congresso organiza-se em painéis com comunicações de 15 minutos, acompanhadas pela presença de um discussant, favorecendo não apenas a exposição de investigações, mas também o debate e a confrontação de perspectivas. Esta opção metodológica reforça o carácter dialógico do encontro e a sua vocação para a problematização, mais do que para a simples apresentação de resultados.
A escolha de Cascais como palco deste primeiro congresso não é despicienda. Enquanto território historicamente associado à vilegiatura, às elites, ao lazer organizado e, mais tarde, à massificação turística, Cascais constitui um cenário particularmente simbólico para discutir a história do turismo e do lazer em Portugal. O espaço físico e o tema do congresso dialogam, assim, de forma quase inevitável.
Num momento em que o turismo ocupa um lugar central nas economias contemporâneas e no discurso público, este congresso propõe um recuo crítico no tempo, lembrando que o presente só se compreende plenamente à luz do passado. Ao tratar o turismo e o lazer como objectos de estudo histórico e social, o I Congresso de História do Turismo e do Lazer afirma-se como uma iniciativa relevante para todos os que procuram pensar o sector para além das suas expressões mais imediatas.
O encontro conta com a chancela científica do HTC – História, Territórios e Comunidades, pólo na NOVA FCSH do Centro de Ecologia Funcional – Ciência para as Pessoas e o Planeta (Universidade de Coimbra), consolidando Cascais como um centro de debate académico de excelência sobre a evolução das sociedades contemporâneas.







