É num quadro de disputa que os líderes europeus tentam romper com a prevalência económica chinesa e militar russa.
A próxima cimeira União Europeia–União Africana, que terá lugar em Luanda entre 24 e 25 de Novembro, surge num momento decisivo para as relações políticas e económicas entre os dois blocos. Além das declarações políticas e da diplomacia habitual, o encontro é marcado por um pano de fundo mais profundo: a competição global pela influência no continente africano, hoje disputada principalmente entre a Europa, a China e a Rússia.
Nos últimos anos, a UE procurou reposicionar a sua estratégia para África, apostando em investimentos de maior impacto económico e em parcerias sustentáveis, numa tentativa de contrabalançar o modelo chinês de grandes infra-estruturas e a presença russa em sectores como segurança, energia e mineração. Esta disputa geoeconómica, crescente, tem implicações directas na economia europeia, incluindo para empresas portuguesas que dependem de mercados africanos para exportar ou investir.
A China consolidou, ao longo das últimas duas décadas, uma posição dominante em sectores fundamentais em África: estradas, portos, energia, telecomunicações e extracção mineira. O modelo de financiamento estatal, rápido e com menos condicionantes políticas, colocou Pequim como parceiro preferencial de vários governos africanos.
Perante este avanço, a UE lançou o programa Global Gateway, que prevê mobilizar mais de 400 mil milhões de euros até 2027 para projectos de energia renovável, conectividade digital, formação e infra-estruturas estratégicas. A prioridade europeia passa agora por garantir que os investimentos reforçam cadeias de valor globais e reduzem dependências críticas, um tema que ganhou centralidade após a guerra da Ucrânia e a fragilidade das cadeias de abastecimento.
Rússia aposta em influência rápida e transacional
A Rússia, embora sem a capacidade financeira da China, tem reforçado a sua presença em África através de uma abordagem mais directa e, muitas vezes, menos transparente. Acordos militares, grupos paramilitares, segurança privada e concessões extractivas fazem parte da estratégia russa para garantir aliados políticos e acesso a recursos. A UE vê esta actuação como uma ameaça à estabilidade e à previsibilidade do ambiente económico no continente.
A cimeira de Luanda oferece também um enquadramento relevante para as empresas portuguesas, tradicionalmente muito presentes em países lusófonos. O reforço da presença europeia pode criar espaço para novas oportunidades em sectores como: energia e transição verde, infra-estruturas e engenharia, água e saneamento, educação, formação e serviços tecnológicos, economia digital e telecomunicações. Ao mesmo tempo, o crescimento da China em mercados lusófonos, como Angola e Moçambique, coloca maior pressão competitiva sobre empresas portuguesas que enfrentam frequentemente condições de financiamento menos vantajosas do que as oferecidas por Pequim.
A escolha de Angola como anfitrião da cimeira não é neutra. O país tem reforçado a sua projecção externa e procura posicionar-se como ponte entre a África Austral, a UE e a China, mantendo relações estreitas com os três pólos. Luanda é, actualmente, um dos centros mais relevantes para observar a disputa por influência económica no continente.
Um encontro que ultrapassa o protocolo
Embora o debate público se foque, muitas vezes, nas presenças políticas, nomeadamente Ursula von der Leyen, António Costa, João Lourenço e outros líderes, o significado mais profundo do encontro está na disputa pelos modelos de desenvolvimento que irão moldar o futuro africano.
A Europa chega a Luanda com a ambição de renovar compromissos, reforçar investimentos e apresentar alternativas credíveis aos parceiros africanos. A China e a Rússia chegam com vantagem no terreno. E África chega com poder negocial crescente, sabendo que todos precisam dela.
A cimeira poderá não alterar de imediato o equilíbrio de forças em África, mas sinaliza que a UE está novamente empenhada em disputar influência num continente onde se multiplicam oportunidades económicas e estratégicas. Para os países africanos, este contexto reforça o seu poder negocial, permitindo-lhes diversificar parceiros e redefinir, em melhores condições, o futuro das suas relações internacionais.







