Os grandes problemas actuais questionam a nossa forma de estar no mundo. Como temos conduzido a nossa existência, desde a revolução industrial, abriu uma nova era de bem-estar e progresso sem precedentes na história da Humanidade. Na procura incessante por uma maior qualidade de vida, ficou de fora a protecção ambiental e sustentabilidade, este último um conceito recente que começou a despertar consciências das sociedades ocidentais que temem a perda inexorável da nossa e única casa comum, o “ponto azul pálido” de Carl Sagan.
Mudar não é uma “moda”, é uma necessidade
Se no plano global a industrialização e o consumo desenfreado abriram caminho para uma crise ambiental sem precedentes, também na agricultura se espelha este desequilíbrio. Se para uns é urgente tomar decisões, legislar e concretizar medidas que revertam as famigeradas mudanças climáticas, para outros, ainda em contraciclo, a vida segue o seu curso e o uso de combustíveis fósseis, a delapidação dos recursos naturais e a emissão de agentes poluentes são meios necessários que sustentam algumas sociedades. O contributo sem tréguas das práticas agrícolas intensivas, que destroem a biodiversidade e provocam o desgaste dos solos, traduz-se em degradação ambiental e perda de qualidade produtiva. Esta é uma realidade bem patente em muitas partes do globo, mas que tem vindo a ser desafiada por essa tal tomada de consciência.
| Eficiência, produtividade e sustentabilidade são os pilares que sustentam esta nova forma de estar na agricultura e com eles vem o reconhecimento. |
A digitalização da agricultura, constituída por ferramentas poderosas que estão a mudar a forma de produzir, é um exemplo claro dos esforços que a indústria tem vindo a fazer. A aplicação de um conjunto de tecnologias digitais, extensível a toda a cadeia produtiva, é uma forma de repensar as práticas agrícolas numa missão clara de optimizar recursos. Eficiência, produtividade e sustentabilidade são os pilares que sustentam esta nova forma de estar na agricultura e com eles vem o reconhecimento.
AKIS e SFCOLB entre o sucesso e as limitações à disseminação tecnológica
Em curso está o Sistema de Conhecimento e Inovação Agrícola (AKIS), um programa europeu adaptado a cada Estado-membro que procura articular saber académico, centros de I&D, técnicos, agricultores e silvicultores. A ideia é criar uma rede integrada de conhecimento, inovação e digitalização que, em Portugal, importa ainda consolidar e tornar mais visível no terreno. O acesso centralizado a informação multidisciplinar pode estimular a cultura de inovação e acelerar a adesão às ferramentas digitais. O desafio, no entanto, está em transformar esta partilha de conhecimento em ganhos de produtividade concretos, e não apenas em intenções.
Também neste domínio se insere o trabalho dos Laboratórios Colaborativos (CoLABs). Em Portugal, destaca-se o SFCOLAB, que reúne empresas, instituições de ensino superior, centros de investigação e associações. A implementação digital de soluções está já a apoiar algumas explorações agrícolas na rentabilização das culturas de forma mais sustentável. Porém, apesar destes exemplos positivos, permanece uma limitação estrutural: a predominância de pequenas explorações, muitas vezes sem dimensão nem recursos para adoptar tecnologias digitais.
Assiste-se, de facto, a um fosso entre os grandes e pequenos agricultores que evidencia a necessidade de políticas públicas mais eficazes, capazes não apenas de levar inovação aos agricultores de menores recursos, mas também de estimular uma mudança de mentalidades. Em muitas zonas rurais, como ficou evidente nos grandes incêndios de verão, predominam explorações assentes em práticas tradicionais, onde falar de agricultura digital ainda soa distante e estranho. Sem esta aproximação cultural, dificilmente se promove o verdadeiro desenvolvimento e a resiliência das comunidades rurais.
Se a tecnologia existe há que fazer uso dela, através de um investimento que traz ganhos futuros. Os desafios de implementação existem, mas políticas de apoio eficazes podem transformar o tecido agrícola. É o nosso contribuito, pequeno à escala global, mas, quem sabe, um incentivo às melhores práticas.
A agricultura digital não é apenas futuro, é já o presente a germinar novas formas de alimentar o mundo em equilíbrio com o ambiente.







